:: O futuro do presente

Certo dia um importante prospect me disse: “Rapaz! Mas isso é o futuro!”.
Minha reação foi dúbia. Um sentimento que ficou entre aquela satisfação que se sente por trabalhar em uma das chamadas “áreas de tendência” - o que também é cheio de dualidades - e uma certa indignação por perceber claramente no tom de sua voz que o futuro era algo ainda distante para o alcance da sua visão. Tentando me colocar no lugar dele imaginei se seria insegurança, ou talvez preguiça pra desafiar processos engessados. Talvez comodismo de quem vive pra cumprir metas. Se sim ou se não, em verdade não importa. O caminho é o das pedras (que é possível e prazeroso) e a receita pra nós é persistir e aprender com a travessia.
Mas aplicar Design de Interação no Brasil é de fato um desafio que me leva mais e mais a buscar empresas com novas culturas, alinhadas em um futuro que na verdade já chegou e está aí. E que entende o desafio como algo possível.
Um colega italiano que hoje está no MIT veio ao Brasil e passou duas semanas, uma delas para o projeto que o trouxe, em Porto Alegre e a outra comigo em São Paulo para visitar e acompanhar alguns projetos. Como bom paulistano e colega de profissão, mostrei muitos lugares, sabores, cultura, e principalmente pessoas e locais marcantes ligados às contemporaneidades. Então já nos últimos dias perguntei sobre como ele via as potencialidades para o IxD no Brasil e tudo o que ele disse nos confirmava que o futuro já chegou sim por aqui. Faltam clientes.
O Brasil tem alma, sensibilidade, conteúdo, plasticidade, inventividade, dinheiro, capacidade e muita energia, o que faz com que qualquer designer - que tem como uma das principais funções ter uma visão holística para elaborar idéias e projetos coerentes com o ambiente e o momento - queira muito participar do nosso talvez novo milagre econômico. Nossos avós já diziam que “O Brasil é o país do futuro” e evidências mostram que esse tempo, desde então vago e incerto, resolveu chegar ao Brasil.
A maior das evidências é a expectativa por parte de cada vez mais e mais pessoas de que as coisas sejam reativas, interativas, diferentes, surpreendentes!
Diria aos meus alunos que nós somos privilegiados só por fazer parte de uma geração que pode iniciar algo completamente novo, do zero. Podemos reinventar tudo, ou quase, o que já foi inventado, resignificar sendo relevante. E para isso precisamos aos poucos ir nos livrando do efeito da transgeracionalidade que, assim como em cada ser humano, age também silenciosamente mas de forma muito eficaz no organismo que é o mercado, o mundo lá fora, o dia-a-dia, as nossas comunidades e realidades.
É também uma grande responsabilidade e que vem com um kit sobrevivência pra usar e abusar. Neste kit estão, dentre outras coisas, a colaboratividade, a liberdade do conceito de open source e a pluralidade de conteúdos a ser explorados, ainda mais no Brasil, um país de riquezas mil. Tem espaço pra todo mundo, desde que a gente se organize pra fazer bonito. E como canta maravilhosamente nosso Lenine, “ninguém faz idéia de quem vem lá”.
Nós designers de interação, os artistas digitais, os ligados em novas linguagens e uso das tecnologias, os experimentalistas e até os curiosos, todos vivemos em plena transição, num certo hiato que fica bem ali entre os paradigmas que estão caindo ou mesmo já em cacos e as tendências que estamos criando e colocando à prova. Onde tem mudança de comportamento e expectativa do novo, ali estaremos.
O futuro se mostra um presente muito estimulande de se viver.
Alexandre Ceneviva
Designer de interação e diretor da ID_Interaction Design
